máscara
eu não gosto de eventos.
Eventos sociais sempre foram difíceis pra mim. Quando pequena, eu me escondia em cantos ou debaixo de móveis. Sempre gostei de banheiros, lugar bom para se esconder, recuperar a personagem que ficou sem substância, e também para aquele xixi ansioso que ninguém precisa saber que existe. O espelho é um bônus excelente: dá para treinar expressões e checar se a bitch resting face não está forte demais para o ambiente.
Quando jovem adulta, o álcool fazia o serviço. Bebia para socializar sem sentir que havia um leão me perseguindo. Sempre fiz muita piada, sempre gostei de jogos com palavras. Era o jeito que eu encontrei de me sentir valorizada no role, sempre fui boa com as palavras, rápida, criativa de um jeito meio torto. Na mesma velocidade em que disparava um sarcasmo certeiro, eu não conseguia entender o sarcasmo de ninguém. Sim, ao mesmo tempo.
Há alguns dias escrevi um poema sobre a minha ornitofobia. Uma das partes mais esquisitas de mim. E agora, além dela, tem a outra coisa que ninguém vê: o tempo que preciso para me sentir humana de novo depois de um evento social. No caso da sexta-feira, o casamento ao qual fui obrigada a comparecer aconteceu num lugar lotado de pavões. Pavões. Ainda estou ouvindo os barulhos.
Eu não queria ir. Se pudesse, não teria ido. Mas ainda me importo com o sentimento das pessoas, e a tia da minha filha amava muito aquele dia. Então fui. Com maquiagem, cílios postiços e salto alto, que deveriam ser classificados como tortura pela Convenção de Genebra.
Hoje ainda não estou pronta para colocar minha fantasia e sair na rua. Queria ser alien por mais um dia. Mas o dever de mãe chama, e a fantasia vai ter que servir.



Sei que o cerne do texto não é este, mas admiro quem se submete a algumas "torturas" por aqueles que estima e ama. Claro, como ficamos depois é outro problema, e precisamos arranjar algumas formas de lidar com isso. Porém, ainda assim, teu texto traz essa questão: quem são as pessoas (ou os momentos) que realmente merecem essa nossa doação?
Muito obrigada por esse texto! Senti um alívio imenso lendo.
Escrevi algo parecido no texto que postei essa semana, quando fui a um show de rock "intimada" pelo baixista da minha banda. Demorei três anos para entender o que havia acontecido.